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O FESTIVAL DA MELANCIA: cultura, agricultura e identidade arariense

15 de set.
6 min de leitura
Melancias cultivadas em Arari. Produção de 2024.
Melancias cultivadas em Arari. Produção de 2024.

Todos os anos, no último final de semana de setembro, o município de Arari, na Baixada Maranhense, se transforma no palco de uma das maiores festas populares do interior do Maranhão: o Festival da Melancia. Mais do que uma festa, o evento é uma celebração da história agrícola do município, da identidade de seu povo e do trabalho dos agricultores familiares que, há décadas, cultivam a fruta que deu a Arari o apelido de "Terra da Melancia". Neste artigo apresentamos, de forma simples e organizada, a origem do festival, suas motivações, sua programação, sua importância social e econômica, além de alguns conflitos e polêmicas que cercam sua realização.


1. Onde fica Arari e por que a melancia é tão importante

Arari é um município da Baixada Maranhense banhado pelo rio Mearim, região conhecida por seus campos alagáveis e por uma agricultura tradicionalmente ligada ao ciclo das águas. É justamente esse ambiente, terras férteis que ficam livres depois da cheia do rio, que favoreceu, ao longo do século XX, o cultivo da melancia como cultura de sucessão ao arroz, plantada pelos agricultores familiares em sistema de rotação de culturas. A produção de melancias sempre foi uma parte essencial da vida em Arari, essa relação estreita entre o rio, a terra e o trabalho familiar é o que explica por que, entre tantas frutas, foi a melancia que se tornou símbolo do município.

O reconhecimento oficial reforça essa identidade: o município é reconhecido geográfica e culturalmente como Terra da Melancia, em razão da grande produtividade dessa cultura agrícola nas últimas três décadas do século XX, o que também deu origem ao próprio festival. Em termos econômicos, Arari chegou a produzir cerca de três mil toneladas de melancia por ano, comercializadas em grande escala em São Luís, outras cidades do Maranhão e até em Teresina-PI, o que mostra o peso da fruta na economia regional, para além do período da festa.

2. A origem do festival: de uma festa suspensa a uma nova tradição


A origem do Festival da Melancia está ligada a um episódio de conflito político local. Em 14 de setembro de 1975, durante a administração do prefeito Benedito de Jesus Abas, conhecido como Biné Abas, desentendimentos políticos entre grupos locais levaram à suspensão da festa de Bom Jesus dos Aflitos. Essa festa religiosa, tradicional na cidade, deixou uma data livre no calendário de Arari.

Foi para preencher essa lacuna que nasceu a nova festa: dois anos depois, o Grêmio Arariense dos Estudantes (GAE), em conjunto com o prefeito Domingos Batalha, decidiu preencher esse dia com uma nova celebração: o I Festival da Melancia. Assim, o festival surgiu de uma iniciativa conjunta entre estudantes organizados e o poder público municipal, unindo confraternização popular e valorização da principal cultura agrícola da região, o que lhe rendeu a origem do Festival da Melancia em 1977.

Com o passar das décadas, novas atividades foram sendo incorporadas à programação original, que reunia principalmente o concurso da maior e mais pesada melancia e a premiação de agricultores familiares. A partir de meados da década de 1980, já nas primeiras administrações do prefeito Leão Santos Neto, foi associada ao evento e se tornaria tradicional a Feira da Cultura, realizada junto com o festival, com lançamento de livros, exposições artísticas, palestras e apresentações folclóricas, no então recém-criado Parque (ou Praça) do Folclore. Foi também nessa fase de crescimento que o festival ganhou o concurso da Rainha da Melancia e firmou o último final de semana de setembro como o Dia da Confraternização, quando muitos ararienses que moram fora voltam para rever a família e os amigos. Hoje o festival já está em sua quinta década: em 2026 foi realizada a 49ª edição, o que confirma sua continuidade como a principal tradição cultural do município.


3. As motivações do festival

É possível organizar as motivações do Festival da Melancia em quatro eixos principais:

a) Motivação agrícola e econômica. O festival nasceu para valorizar o trabalho de quem planta a melancia. Prova disso é que, historicamente, a programação sempre incluiu o concurso da maior e mais pesada melancia e a premiação aos produtores da agricultura familiar local. Em algumas edições, o evento também recebeu seminários técnicos, como um encontro com pesquisadores da Embrapa e representantes de bancos e órgãos de assistência rural, que debateram tecnologia de produção, crédito, assistência técnica, agronegócio e comercialização da melancia, mostrando que a festa também cumpre um papel de discutir o futuro da produção agrícola do município.

b) Motivação cultural e identitária. O festival reforça o sentimento de pertencimento dos ararienses. Ele reúne apresentações folclóricas, desfile e escolha da Rainha da Melancia, exposição e comercialização de artesanato e outras peças de arte da produção local, valorizando tradições populares ararienses.

c) Motivação social e de confraternização. Por acontecer sempre no mesmo período do ano, o festival se tornou uma espécie de "data de reencontro": famílias que se mudaram para outras cidades organizam suas viagens para coincidir com a festa, fortalecendo os laços entre quem ficou e quem partiu.

d) Motivação política e turística. Por ser um evento tradicional e de grande público, o festival também é usado pelas gestões municipais como vitrine política e como estratégia de fomento ao turismo regional, atraindo visitantes de cidades vizinhas e movimentando o comércio local durante os dias de festa.


4. A programação: o que acontece durante o festival

Ao longo de décadas, o Festival da Melancia consolidou uma programação que mistura agricultura, beleza, esporte e cultura popular. Entre as principais atrações estão:

  • O Cortejo da Melancia: um desfile pelas ruas da cidade em que produtores rurais, autoridades, estudantes e grupos folclóricos percorrem as ruas de Arari, reverenciando a melancia e seus produtores, com distribuição de fatias da fruta à população.

  • O concurso da Rainha da Melancia: disputado por jovens estudantes de escolas do município, historicamente indicadas pelas próprias escolas ou pela comunidade. O resultado é obtido a partir de percentuais de votação popular, somados a percentuais de um júri artístico e técnico, muitas vezes formado por jurados de fora de Arari, o que busca dar mais imparcialidade ao concurso.

  • O concurso da maior, mais pesada e mais doce (ou mais saborosa) melancia: o momento mais tradicional da festa, em que produtores rurais apresentam seus melhores exemplares para disputar o título, celebrando o esforço e a técnica de quem trabalha a terra.

  • Vaquejada e cavalgada: atividades ligadas à cultura sertaneja e pecuária da região, que atraem vaqueiros, cavaleiros e amazonas de Arari e de municípios vizinhos.

  • Feira cultural e Feira do Produtor: espaço de exposição e comercialização de artesanato, produtos agrícolas e manifestações culturais locais, que já contou também com atividades técnicas, como dias de campo sobre sistemas de irrigação para melancia, arroz, milho e feijão.

  • Shows na Praça do Folclore: apresentações de bandas locais e, em muitas edições, de artistas de projeção regional e nacional, encerrando as noites de festa.

Em edições mais recentes, a programação também passou a incluir atividades como passeios de moto em trilhas por áreas de produção de melancia e homenagens a personalidades locais, mostrando como a festa vai incorporando novidades sem perder sua base tradicional.


5. A importância do festival para Arari

O Festival da Melancia tem um papel que vai muito além do entretenimento:

  • Para a economia local, o evento movimenta o comércio, a hospedagem e a alimentação da cidade durante os dias de festa, além de dar visibilidade à produção agrícola do município e reforçar seu potencial de negócios com a fruta.

  • Para a agricultura familiar, o festival funciona como reconhecimento público do trabalho de quem planta, sendo também espaço de troca de conhecimento técnico entre agricultores e instituições de pesquisa e extensão rural.

  • Para a cultura, o festival preserva tradições populares, folclore, artesanato, música regional, que poderiam se perder sem um espaço fixo de valorização.

  • Para a educação e a identidade dos jovens, o festival envolve diretamente as escolas municipais, seja pela participação das estudantes no concurso da Rainha da Melancia, seja pelos desfiles e apresentações que mobilizam alunos e professores, reforçando o sentimento de pertencimento à cidade desde a infância.

O Festival da Melancia de Arari é, ao mesmo tempo, uma festa agrícola, uma celebração cultural e um retrato da vida de um município da Baixada Maranhense. Nascido de um conflito político a partir de 1975 e transformado em tradição a partir de 1977, o evento resiste há quase cinco décadas, unindo a homenagem ao trabalho do agricultor familiar, a valorização do folclore local e o entretenimento popular.

Ao mesmo tempo, como toda grande festa mantida com apoio do poder público, o Festival da Melancia também convive com tensões, entre gasto público e prioridades sociais, entre tradição e espetáculo, entre memória popular e disputa política. Discutir esses dois lados, a celebração e o conflito, é uma boa forma de usar o festival como ponto de partida para se pensar sobre identidade local, agricultura familiar, cultura popular e cidadania.

 

 

 
 
 

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